8.29.2012

Estranhos são os corpos que pouco comunicam entre si. A inutilidade com que se desenham as palavras que não encaixam na do outro, a subtileza com que são ouvidas e quase nada reconhecidas. Parece atento. Da boca, da que diz frases que se escutam, e ouve-se ao longe uma felicidade que ainda não se conhece. Está tudo bem, ali. Está, por agora. Porque não se conhece outra vida. Mas são só palavras e parece que escutá-las ou não pouco importa. Que o tempo passa mesmo assim, só passa mais devagar.

8.28.2012


Pressinto a sombra que me acompanha, que hoje o dia não traz mais o teu cheiro. Adormeço num acordar constante. Preciso de ti para me lembrar de mim.

8.22.2012

.história

Ele diz, Amor e ela diz, Amor. E juntos são um só. Nos dias assim em que nenhum segundo do dia mata a saudade que trazem no peito. A saudade de serem só um. E pensava que dois não podiam ser um só, não acreditava ser possível. Há dias em que tem de se agarrar a pele quente, puxá-la de um só fôlego para se convencer de que ele existe.


fotografia: Carlos Moreira

8.19.2012

As portas que se fecham. O mecanismo apressado que empurra os corpos, ora para dentro, ora para fora. As pessoas que só passam e não ficam, vão apressadas. Somos só gente que passa e não fica. Somos só nós que a vida é outra coisa e é muito mais.

Deixas um vazio. O lugar vazio.

8.17.2012

Os teus passos apressados. Os teus passos que sigo com pressa de fugir de mim, que agora já só querem encontrar-me. Calco o chão que é quente, onde te persigo, dia após dia.

8.05.2012

O frio


Miguel Esteves Cardoso, no Público de 04/02/2012


"Está frio. Seria bom acordarmos ao meio-dia, chatearmo-nos com o tempo e deitarmo-nos às seis da tarde. A hibernação faz sentido. Foi pena a evolução ter-nos roubado essa capacidade, se é que alguma vez passámos por ursos, que é o mais provável.
Só com muito optimismo se pode dizer, como já ouvi, que, a partir do meio-dia, as tardes parecem as madrugadas frias do princípio do Verão. Está frio e a chatice do frio, para quem tem sorte, é estar sempre a mudar de temperatura. Só na cama, quando se acorda ou depois de amor carnal, é que se fica com a temperatura certa.
Durante o resto do dia e da noite ou se está frio de mais ou quente de mais, ou, pior ainda, a transitar de frio de mais para não suficientemente quente ou de quente de mais para um frio demoníaco.
Cada abertura de uma porta, cada vestir ou despir de uma camisola, cada entrada ou saída duma casa, dum carro ou duma sala é uma ameaça, um ataque, uma desilusão. O frio é uma lembrança de como dói não estarmos livres de sofrer (embora o resto do mundo nos ache com sorte).
Está frio. Mas não há ninguém que nos defenda. Até porque estamos, porventura irritantemente, melhores do que os outros todos. Que também não estão com calor.
O frio é a nossa praga, rainha, oportunidade de nos passarmos para o outro lado. O frio que está é uma lembrança do futuro. É um sinal que temos de lutar para estarmos quentes. Cada dia é uma queda física, à espera de uma ascensão de qualquer espécie. Aqueça-se."